Metri já fazia parte de mim, conseguia acompanhá-lo mesmo distante. Enquanto ele não decidisse o que queria de verdade, eu não podia fazer muita coisa, (pra que é que eu sirvo mesmo?) Saio perambulando pelo reino e encontro um garotinho de aproximadamente 12 anos de idade, mas com o semblante deveras envelhecido e opaco, sofrido pela vida que levava.
“Cada um de nós é um herói. Isso é um dote. Temos um chamamento para a aventura. Recusamos. Segue-se uma crise. Não podemos voltar atrás – e atendemos o chamado. Juntamos auxiliares, professores, guias. E cruzamos o limiar do desconhecido. Perdemos a nossa identidade e afundamos num abismo, no nadir, na barriga da baleia. E emergimos. Começamos a viajar de volta, para aquilo que conhecemos – cruzando de volta a fronteira. Nós voltamos. Transformados” (O Herói, de Joseph Campbell)
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Interlúdio
domingo, 16 de agosto de 2009
Bílis Negra

É isso o que eu ganho: o que eu perco. Resseco-me, definho-me e reduzo-me a cinzas. Quase me defronto com o nada que sou e por isso volto desesperado para o que não era, volto a ser a mesma ausência de mim, neste corpo que aos poucos desaparece. Dor e desespero se alternam, ainda poderia continuar me matando, insistir em lograr êxito, mas a morte me nega essa cortesia. Porque morrer não acomete quando se quer, mas quando se precisa, e mesmo achando que preciso e talvez não queira, sinto que existir me cabe quase como um vômito. [Cogito, ergo e sumo]
Esse existir dormente dói em mim. Dói a mesma dor que me deixou aqui sozinho. Veja, nem mesmo ela, essa dor miserável, que me levou a mutilar minha própria alma, já não se faz mais presente. Queria que ela estivesse aqui pra ver como dói não sentir dor. Pra ver que o vazio é doloroso, porque empurra, força, e acaba por preencher a alma com uma falta oceânica.
Esse existir dormente dói em mim. Dói a mesma dor que me deixou aqui sozinho. Veja, nem mesmo ela, essa dor miserável, que me levou a mutilar minha própria alma, já não se faz mais presente. Queria que ela estivesse aqui pra ver como dói não sentir dor. Pra ver que o vazio é doloroso, porque empurra, força, e acaba por preencher a alma com uma falta oceânica.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
5:13 A.M.- agora e na hora.
, mesmo sem querer. E quando voltava para si, reabria-se num lago enorme de águas apodrecidas, com cadáveres boiando (estaria ele também boiando ali?). Entra então numa pequena embarcação e sai afastando os mortos para poder navegar suave. Rema por incontáveis horas, mergulhando na névoa espessa adentro, não consegue enxergar nem quando fecha os olhos, seu pensamento soletra um inconsciente sombrio. A outra margem está lá, ele sabe, mas o barco não desliza sobre águas com facilidade. Estou nesse barco sentado ao lado de Metri e não há pesca. Eu sou o Peixe. Sua rede é fraca e possui buracos enormes, não existem pescados tão grandes nesse lago. Ele me olha e devolvo sua indagação silenciosa. Ele apenas existe, eu resisto em estar ali. Seguimos buscando outros pelo caminho que, como ele, anseiam chegar na outra margem. Era já madrugada. Selenia aparecia plena no reflexo, constante e clara. A água batia no casco espessa como a vida e o vento frio acariciava nossos rostos, trazendo uma mensagem de esperança. Metri às vezes parava de remar, cansado, respirava fundo e tossia. Não trocávamos uma palavra, mas dialogávamos com solilóquios gestuais e olhares furtivos. Ele dizia, eu compreendia. Eu o ensinava, ele fingia aprender. Eu insistia...Ele concordava, mas não cedia, e depois agia como se nunca houvesse escutado o que eu tinha dito. Eu estava presente o tempo todo, ele nem sempre. Eu era acessível e prontamente atendia a seus pedidos. Ele me buscava quando perdido e apenas me dirigia o olhar debaixo de desespero, e por cima. Eu não sabia mais o que fazer, mas sem saber o quê, continuava fazendo, quem sabe um dia eu acertasse, quem sabe um dia ele aprendesse, e já que estávamos no mesmo barco, alcançaríamos outras praias, contemplaríamos horizontes mais claros. Ele era um desolado e pensava que eu era apenas mais um que tentava; não sabia que eu tinha sido enviado especialmente para isso e que jamais voltaria de mãos vazias. Aprendi a querê-lo bem. Era ele quem tinha que agarrar os remos e mover-se, enquanto me ocupava em fazê-lo perceber que não ficaria à deriva, que naufragaria jamais, e que acaso isso ocorresse lá estava eu todo farol. Atracamos numa ilhota escondida e verde habitada por três irmãs: Valeria e Ana, gêmeas e Flora. Fizemos essa pequena escala a pedido de Metri, conhecidas de muito tempo dele. Alegou estar há dias sem maquear sua angústia com o hedonismo suicida de praxe e por isso ansiava estar na presença das três que o mimavam. Valeria e Ana, sempre letárgicas, desaceleravam partículas, mediavam sinapses, desconstruiam lentamente as torres da ansiedade. Flora repunha os humores e vibrações corporais em ordem, devolvia cores e odores à paisagem. Metri se deixava levar pelo embalo doce, pelo aroma plácido e telúrico, pelo sabor onírico que aquele pedaço de calma exalava. Aproveitava e desligava-se, depois abria as mãos e deixava tudo cair no chão. Dando as costas pro espelho, ia buscar outras ilhas. Não o quero por perto agora, Rhistoc, não me acompanhe, insisto, desça! Metri, antes de tudo existir, eu sou. escolhe onde queres ir, já estarei lá... Migramos por fim para um arquipélago pantanoso, onde centenas de indivíduos compartilhavam parasitismos variados. Aquilo sim era uma congestão de almas. Encadeadas pelo terror de estar e de não querer estar ali. Indecisas e perturbadas, movimentavam-se para ter a sensação de ainda estarem vivas e de que podiam ir a algum lugar. Iam e vinham e nunca chegavam. Encerravam-se em pequenas células sujas e quedavam por horas, dias naquela masturbação sem orgasmos - enganando, roubando, trocando, comprando, vendendo tudo o que viam pela frente e por trás também, tudo o que tinham e o que não tinham, como por exemplo, a própria vida. Isso tudo apenas por mais uma experiência pseudo-divina. Esse isso havia se transformado na razão de existir deles e aos poucos evoluía (involuía?) para vir a ser a razão de não mais existir também. Aquela ilusão era a ótica deles, aquilo era real? Metri nunca tinha visitado esse arquipélago, acaba de me dizer, mas sentia-se à vontade, pois o despadrão era o mesmo em todos os conjuntos de ilhas daquele tipo. Metri marcou o chão com um pedaço de carvão, urinou no poste, deixou-se saber a que tinha vindo. Reuniu alguns afins e instalou-se com eles num deslugar a desligar. Munido dos artefatos necessários: fogo, cinzas e um receptáculo, suava frio, tremia, ansiava pelo beijo morbígeno, queria se esvaziar por completo. O que estava pra acontecer não seria bom para ele, ele sabia, mas não se deseja algo apenas porque se pensa que aquilo é bom, avalia-se aquilo como bom justamente porque o se deseja. Organizou ritualisticamente os elementos, pôs em seus devidos lugares, teve uma ereção discreta, seu intestino sinalizou, aproximou o receptáculo da sua boca delicadamente, ateou fogo e trouxe tudo pra dentro de si... já não estava ali, não estava em lugar nenhum. E houve então um silêncio tão alto que até a molécula mais distante parou pra escutar. Ficou um tempo impreciso flutuando na mesma posição, a boca cheia d’água, a vista escurecendo, soltou tudo o que estava em suas mãos e desfaleceu. Foi o sussurro da morte, o beijo de boa-noite da deusa. Sobredosado, perdido em si mesmo, (ubi sum?), seu pneuma vagava. Não soltei sua mão e o agarrei pelos fios dourados que ainda o prendiam à matéria. Ele queria ir – não era esse o objetivo? Era o fim da sua busca metafísica, o início do encontro consigo mesmo e da sua maior decepção: não havia restado nada dele para que pudesse ser encontrado. O relógio ficou parado onde a soma era nove, o fim do ciclo, mesmo sendo incerto se haveria de começar outro, diferente ou não desse. E eis que depois de um largo tempo ele se recorda que não tinha nascido somente pra isso: morrer. A morte é uma consequência da vida (e também a causa?), mas querer morrer é antes de tudo o primeiro sinal de que já se está morto. Olhou para dentro de si e me viu esperando sua próxima tomada de atitude; estendeu a mão e saiu. Voltou a si, olhou o entorno, estava sozinho; todos fugiram apavorados. Acendeu a luz, lavou o rosto, sentiu-se assustado também com o pesadelo. Havia permanecido naquela ilha fazia dias, não conseguia sair dali. Continuava tendo encontros com a deusa, mesmo sem querer. E quando voltava para si, reabria-se num lago enorme de águas apodrecidas, com cadáveres boiando (estaria ele também boiando ali?).terça-feira, 21 de julho de 2009
Escuto tudo o que ele acaba de dizer calado. Distancio-me e me envolvo nestes pensamentos, ele sabe que sou eu quem o influencio, eu sou essa cadência perene que o faz refletir. Ele me chama sem saber meu nome. Isso várias vezes durante o dia, sem ter certeza de que eu existo, sem se convencer de que o abstrato e o concreto se mesclam. Introduzo-me e tento entabular uma comunicação. Ele cético, tenta me explicar a dureza de se deparar com o que sempre idealizou, sem saber mesmo o quê e como e porquê. Que valha alguma coisa, é preciso. Sei que ele me busca, faina diuturna, deposita uma âncora teologal em mim. Não pretendo ser seu redentor. A fechadura está do lado de dentro dele, posso ajudar a forjar a chave, sê-la não. Era noite, e as sombras estavam deslocadas. Selenia escondida, nova, apenas seu espectro me teleguiava. Sussurrava que este seria um dos meus discentes preferidos, (ou o contrário?). Preconcebi o sujeito com um olhar tosco, reneguei levemente meu papel com obliquidade quase frívola, desdém. Rhistoc...Ai, Aleph, você de novo, dissociando-me. Assintonia insistente, pseudo-pedagogia imposta. E Selenia, e Aleph e quem mais? Tudo bem, estou aqui, o quê agora? Lembra-te... Ai, esse eco... Lembra-te pra que viestes... Compadeço-me. Preferia poder escolher, mas me impõem. Este é apenas um deles, haverá outros num total de doze... Doze? Por que doze? Doze não é um número, Rhistoc... Ah, não me venha, com essa voz modulada subconsciente, falando em símbolos! Exatamente, é um símbolo. O doze perfaz toda uma cosmogonia. Doze são as horas de Helios e de Selenia. Com a metade de doze foi criado o que existe e em seguida houve o descanso. Doze serão aqueles que haverás de encontrar e que irão te acompanhar... Observe, ele está em apuros, embriagou-se no ludíbrio da deusa. Está dividido agora, não tem rumo, apenas deseja sair dessa existência lúgubre. Sua vida é um pesadelo perpétuo. Viestes para clarear o horizonte deste e de tantos outros, para mostrar que a terra só está desolada, porque eles assim também estão. O Rei está ferido, mas não há o “Rei” isoladamente, o Rei são eles, ou/e está neles. Eles é que estão feridos. Tu co-participante da dor deles, tua ferida também está aberta. Tu cicatrizante das chagas deles, renasces com eles. E sabes, não há quem te busque que não te possa encontrar. Oh, humanidade, que busca ilógica! Estás o tempo todo neles, com eles. Basta que façam silêncio, basta que parem de dizer a verdade deles e comecem a escutar a tua. Basta que parem de te procurar onde nunca irão encontrar. Tua missão acaba de começar, Rhistoc, e quem pega no arado não deve olhar mais para trás, disto sabes tu. Prepara-te para o que vem a eito.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Pêndulo
De certo não se escolhe ficar enfermo, noutras vezes não há escolha. Pode-se escolher continuar doente; posso preferir, cônscio e alegando-me inconsciente, continuar sofrendo , posso gostar dessa paixão. A paixão que não avisa quando vem, a paixão que conforta e machuca. E também a paixão que ultrapassa os limites da lógica, parcialmente marcante, fanática e cega, dominadora. Assumo que escolhi cultuar a deusa, mas quão cego de antemão, de anteolhos ela me deixou, até mesmo para perceber que ela não era essa flor de cheiro doce ou que antes mesmo era, mas logo esse aroma apodrecia nas narinas, carcomia os alvéolos e dissolvia a alma. Não escolhi me apaixonar, caí doente de paixão, não escolhi essa paixão calvária. Verto-me agora indiferente e fugaz por carência de melhor opção, devo deixar de me sucumbir a essa flecha flamejante. Carente de dores, submeto-me: eu sei. Carente de bálsamo, desisto: não sei de mais nada. Meu único lenitivo é a esperança.
A deusa maldita me cansou. Deixou-me sem ânimo-anima-animus. Niilismo espiritual, aniquilamento somático. Devo extrair minha essência a partir desse vazio em que me transformei, no nada há tudo o que pode vir a ser, o começo está onde nada existe. Alguma coisa está provocando esse desvio de padrão no meu pensamento, alguma presença, algum fluido. Tenho sentidos o suficiente para perceber isso. Estaria esse estímulo fora ou dentro de mim, seria parte minha ou adventício?
Não quero mais me ater a essa filosofia de carrossel, sei que isso não há de parar, desliguem a tomada, verão que não pára. Rodando sempre e deixando-nos todos tontos e tolos. Antes-tolos, após-tolos da deusa. E de que me serve isso se não consigo descer dessa roda de cavalinhos, pior, jumentinhos, com todo respeito aos asininos. Não há a próxima parada, apenas roda, roda, roda a mesma paisagem, o mesmo cenário, não há novidade. De um salto poderia me arriscar. Preciso calcular a velocidade em que estou pra precisar o tamanho do tombo. E isso seria um anti-tombo, seria um cair pra cima. Por que então esse medo da ascensão? Sou um porco que retorna à lama após ter tomado banho? Claudico na linha grácil entre o sobejo da vida e o ordálio. Mas esse poder não vou usar mais contra mim, o mais fraco em mim que desista.
A deusa maldita me cansou. Deixou-me sem ânimo-anima-animus. Niilismo espiritual, aniquilamento somático. Devo extrair minha essência a partir desse vazio em que me transformei, no nada há tudo o que pode vir a ser, o começo está onde nada existe. Alguma coisa está provocando esse desvio de padrão no meu pensamento, alguma presença, algum fluido. Tenho sentidos o suficiente para perceber isso. Estaria esse estímulo fora ou dentro de mim, seria parte minha ou adventício?
Não quero mais me ater a essa filosofia de carrossel, sei que isso não há de parar, desliguem a tomada, verão que não pára. Rodando sempre e deixando-nos todos tontos e tolos. Antes-tolos, após-tolos da deusa. E de que me serve isso se não consigo descer dessa roda de cavalinhos, pior, jumentinhos, com todo respeito aos asininos. Não há a próxima parada, apenas roda, roda, roda a mesma paisagem, o mesmo cenário, não há novidade. De um salto poderia me arriscar. Preciso calcular a velocidade em que estou pra precisar o tamanho do tombo. E isso seria um anti-tombo, seria um cair pra cima. Por que então esse medo da ascensão? Sou um porco que retorna à lama após ter tomado banho? Claudico na linha grácil entre o sobejo da vida e o ordálio. Mas esse poder não vou usar mais contra mim, o mais fraco em mim que desista.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Enfermidade
Você que observa da plateia não sabe....aqui no palco é muito difícil... Mas me responda, pra mim que estou doente: se eu tivesse um câncer, você iria me abandonar?
domingo, 28 de junho de 2009
Intervalo doloroso: contemplação.
Como eu pude fazer aquilo de novo? Como eu pude arriscar tudo outra vez? Só tenho uma resposta para essas perguntas, e que eu seja perdoado por isso, não faz o menor sentido, mas gostaria de saber. Minha resposta é uma outra pergunta: Por que eu não posso?
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