Eu queria mermo era uma mãe. Que me desse um abraço, me botasse no colo e me balançasse pra mim dormir. Eu fico é aqui sentado nessa calçada, sozinho, olhando as formiga. Perdi a chinela, é, minhas mão tão imunda mermo. Só vejo o que tá do joelho pra baixo de quem fica passando. Tem umas sandália bonita, uns sapato engraxado novin. É difícil vê alguém de pé descalço que nem eu, mas aí se eu vejo, eu também num quero nem sabê quem é. O mundão é esse: do joelho dos outro pro chão. O sol vem e dá na minha cara e eu abaixo ainda mais a cabeça, cubrindo os ói com o braço. Só levanto a mão pra continuá pedindo o que num aguento mais repetir. Às vez eu me levanto e ando um pouco, mas é só das vez. Num tenho pra onde ir não, moço. Se me perguntá onde é que eu moro, pronde é que eu vô, num sei dizê não. Eu moro onde ninguém ia querê, eu vô pronde ninguém qué ir, eu sô mermo é o que ninguém qué sê. Pai... eu acho que todo mundo tem que ter um, né? Só que o meu eu num sei quem é não. Quando eu tava lá na favela, os pessoal falava que o meu pai mermo tinha vendido eu pro traficante quando eu era ainda novin. Então eu tenho o traficante como o meu pai, e a droga como minha mãe. Ninguém liga muito pra eu não, eu acho mermo é que é todo mundo contra eu e eu também num confio em seu ninguém. O meu pai de mintira, o que me comprou do meu pai mermo, foi preso porque descubriro que ele teve um filho com uma filha dele. Ele vivia fazeno essas arrumação. Cumia as minina de casa tudin, as filha, as sobrinha... Dava droga e depois cumia. Ele dizia que quem sustentava elas era ele, então as minina tinha que ser dele também, né? Foi, teve uma vez que ele tava muito doido e veio pro meu lado também. Eu num pudia fazê nada, que ele dizia que ia me matá. Aí depois que ele foi preso eu saí de lá e vim morar na rua. Aqui é mais legal, tem um monte de coisa pra fazê. Mas também é mais difícil ficá vivo. Muita das coisa eu já sabia fazê antes de sair de lá: robá, enganá quem me pede pra comprá droga, pedir esmola nos sinal pra comprá cola pra cherá, e outras coisa. Calou-se. Ficou coçando o pé, cutucando a unha do dedão, enrolando o cabelo, chupando o dedo. Eu sentado do seu lado, vendo o mundo pelos joelhos, ajoelhado, em prece por aquela faísca de vida que insistia em manter-se acesa. A impressão que me dava era de que ele não sabia se continuava vivo ou se era uma alma sem destino. Pedir era a palavra do dia, dos meses e dos anos. Pedir pra viver, pedir pra morrer. Porque viver e morrer pareciam ser para ele a mesma coisa. Já no fim da tarde, quando Helios se acalmava e Selenia se negava a aparecer para um ciclo a mais, permaneci sentado ao lado dele, porque eu também não sabia pra onde ir. Tentei entender porque às vezes, ou quase sempre, eu me perdia por quem encontrava no caminho. Seria porque eu me encontrava neles e, tão perdido quanto eles, restava essa complacência, até que eu me redescobrisse e, através deles mesmos, sobressaísse de nós. E nessa reflexão sobre o que eu devia fazer e o que já estava desfeito demais para se pensar em fazer algo, quedamos naquele pedaço do reino, até que Helios aparecesse de novo e dissesse: É hora. Mas antes de obedecer ao comando de Helios e de arrancar as raízes que saíam dos meus pés e se enroscavam no calçamento e as hastes de folhagem que se fixavam no muro e no menino, sinto sua mãozinha gelada e delgada no meu braço e escuto baixinho e fraco: É igual a tudin... já vai também, né. Pode ir, num tem quem aguente ficá mermo. Mas, eita, olha ali! Tem uma mulhé lá correndo e um monte de gente disparado atrás dela. Ficamos olhando de longe aquela cena e de repente a mulher é alcançada pela multidão e várias pessoas ao redor dela a dominam e saem depois correndo, deixando-a deitada no meio da rua, os carros passando do lado, quase a atropelando. Rapidamente me projetei até ela. Devia possuir umas 3 décadas de vida, ruiva, magra, vestes mínimas, o rosto contra o chão, o sangue, a poça. Pessoas em volta, paradas, horrorizadas, mas sem ação, apenas olhando curiosas. Puxei-a pelo vermelho da sua cabeça, ela recupera a consciência, olha ao redor e para si, não sabe mais se o vermelho é cabelo ou sangue, não me percebe ali e grita: Velha maldita!!!
2 comentários:
essa pessoa só queria um perdão das pessoas q ama.....ele queria uma pessoa q lhe ama e que o cuide e q ñ o deixe fazer nada d errado...........
essa pessoa só queria um perdão das pessoas q ama.....ele queria uma pessoa q lhe ama e que o cuide e q ñ o deixe fazer nada d errado...........
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